A mulher e o sacrifício: De Antígona à mulher ao nosso lado
Por: Gabriela Cordaro
Há alguns anos pesquiso a obra de Anne Dufourmantelle. Ainda pouco traduzida e conhecida no Brasil, a autora teve uma atuação profícua na cultura francesa como filósofa, psicanalista, escritora e intelectual presente no debate público. Sua obra transita entre a filosofia, a psicanálise e a literatura, interrogando temas como amor, risco, segredo e hospitalidade, de forma extremamente original.
Anne teve uma morte trágica em 2017, aos 53 anos, ao tentar salvar duas crianças, amigos de sua filha, que se afogavam no mar. Essa circunstância pode produzir uma ressonância incontornável com sua reflexão sobre o risco e o sacrifício, mas é preciso ter cautela para não romantizarmos sua morte imprimindo a ela ares heroicos, nem lermos depressa demais algum tipo de anunciação que poderia estar presente em seus livros.
Algo que me interessa especialmente em sua escrita é o modo como ela desloca nossa maneira de olhar para temas que julgamos conhecer. A mulher e o sacrifício: de Antígona à mulher ao nosso lado, que chega agora ao Brasil pela Editora Vozes, produz esse efeito.
O título anuncia um movimento ambicioso: traçar uma linha entre Antígona e a mulher ao nosso lado. Para isso, Anne percorre figuras que constituíram o imaginário ocidental, como Ifigênia, Antígona, Medeia, Virgem Maria, Maria Madalena, Julieta, Isolda, Joana d’Arc, entre outras até chegar às mulheres anônimas, aquelas com quem cruzamos todos os dias sem necessariamente enxergá-las. No livro, a mulher sacrificial não habita somente os mitos, as religiões ou as grandes histórias de amor, mas é também, nas palavras de Anne, alguém “terrivelmente banal”.
É nesse percurso que aparecem as “vidas brancas”, uma das ideias mais potentes do livro; vidas marcadas não pelo gesto sacrificial grandioso das heroínas trágicas, mas por um apagamento progressivo de si mesmas. Mulheres que não morrem, mas que em nome de uma renúncia não reconhecida como sacrifício desaparecem em vida. Anne retira, assim, o sacrifício do território exclusivo da tragédia e do heroísmo para incluí-lo na vida cotidiana.
Séculos de cultura associaram as mulheres às ideias de renúncia, de abnegação, de cuidado com o outro e de maternidade sacrificial. Por que, então, voltar a aproximar essas duas palavras, mulher e sacrifício? Anne não naturaliza essa associação, mas a interroga. Seria um equívoco ler o livro como uma simples denúncia da condição sacrificial das mulheres. Ela pergunta por que o imaginário ocidental inscreveu a feminilidade como destino sacrificial por excelência. Não se trata de atribuir às mulheres uma natureza mais sacrificial, mas de interrogar por que a cultura as fixou historicamente nesse lugar.
O sacrifício, em sua leitura, guarda uma ambiguidade fundamental. Por um lado, pode aprisionar uma mulher numa relação de fidelidade a um ideal de abnegação. Por outro, pode reencenar o trauma para restituir ao sujeito a voz silenciada. Por isso, a mulher sacrificial nunca é apenas vítima, seu gesto pode conter uma revolta e perturbar a ordem da família, da cidade, da moral e daquilo que cada cultura determina como possível para uma mulher. Em sua dimensão criadora, sacrificar não é simplesmente oferecer-se à perda ou à morte, mas colocar em jogo aquilo que nos mantinha presos ao mesmo, abrindo outras possibilidades.
Essa ambiguidade impede que a emancipação se transforme em uma narrativa simples de libertação ou vontade individual. A pergunta que atravessa o livro é mais difícil e continua muito atual. Apesar das transformações nas formas de ser mulher, constituir família, exercer a maternidade e viver o amor, continuamos cercadas por discursos que associam o feminino à disponibilidade, ao cuidado e à capacidade aparentemente inesgotável de suportar (em sua dupla visada) o outro. Os antigos ideais sacrificiais não desapareceram. Em muitos casos, apenas assumiram outras formas. Anne percebe inclusive o paradoxo contemporâneo de mulheres das quais se espera tudo ao mesmo tempo, até a exaustão.
Outro aspecto que me toca especialmente é a passagem que liga o sacrifício à criação. Anne pergunta quantas mulheres sentiram que precisavam sacrificar a família, o casamento, os filhos, os vínculos sociais ou a própria possibilidade de pertencimento para poder criar. Sua resposta não consiste em escolher entre maternidade e criação ou entre amor e liberdade. O que ela questiona é justamente a lógica que divide essa escolha. Criar pode ser uma maneira de interromper a repetição, fazer alguma coisa com aquilo que recebemos e transformar uma herança em vez de simplesmente transmiti-la.
A mulher e o sacrifício não oferece respostas prontas para as discussões contemporâneas sobre gênero, maternidade ou feminino. Anne acrescenta a elas uma dimensão psíquica, histórica e trágica que muitas vezes perdemos de vista. Entre a heroína antiga e a mulher ao nosso lado existe uma longa história de fantasias, violências, ideais, silêncios, amores, ressentimentos e dívidas que não desaparecem simplesmente porque nos consideramos modernos.
A chegada deste livro ao Brasil de hoje me parece especialmente importante. Sua leitura nos convida a perguntar o quanto de nossas escolhas pertencem ao presente e o quanto continuam respondendo a dívidas antigas; a quem permanecemos fiéis quando renunciamos ao desejo; quanto daquilo que chamamos de amor ainda exige de nós alguma forma de sacrifício.
Anne Dufourmantelle chegou até mim numa livraria de Buenos Aires há alguns anos. A mulher e o sacrifício foi o primeiro livro que li da autora e abriu uma porta que, desde então, me levou por muitos outros caminhos. Por isso, é especialmente bonito vê-lo chegar agora ao público brasileiro e encontrar novos leitores.
Gabriela Cordaro, psicanalista, interessada nas relações entre psicanálise, teatro e literatura. Docente no Centro de Estudos Psicanalíticos (CEP), onde também coordena o projeto Observatório sobre gêneros e sexualidades. Participa de atividades de transmissão no Instituto ESPE - Ensino Superior dedicado ao ensino e à pesquisa da Psicanálise no Brasil. Estuda e orienta grupos em torno da obra de Anne Dufourmantelle. Autora de “Pidgin” (Laranja Original, 2023). Instagram: @gabrielacordaro
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