Ecopsicoterapia
Por: Daniela Laskani
O lançamento do livro Ecopsicoterapia pela Editora Vozes é motivo de grande comemoração. Trata-se do primeiro livro sobre ecopsicoterapia de autoria estrangeira a ser traduzido para o português no Brasil. Towards an ecopsychotherapy, como é originalmente intitulado, carrega o epíteto de um modo de exercer a psicoterapia em constante construção e conexão com o mundo mais que humano. Mary-Jayne Rust escreve em linguagem única e profunda para falar do mundo invisível, tão atuante e presente em nossas vidas pessoais, coletiva e trabalho clínico. Sob referência cultural que tende objetificar a vida, conforme amadurecemos vamos perdendo nossas capacidades sensíveis para senti-la. Compensatoriamente, sintomas surgem nos obrigando a entrar em contato com esse sofrimento.
A maior parte das terapias e psicoterapias buscam considerar apenas sintomas referentes ao sofrimento das relações humanas. Cultura é compreendida como o avesso daquilo que entendemos por Natureza no cenário dominador e dominante que exerce esforço para se afastar do contato com suas raízes profundas de origem da vida. A ecopsicoterapia historicamente rompe com a lógica binária e parte do pressuposto que os relacionamentos humanos pertencem a uma forma mais ampla e interconectada de se relacionar com as outras existências. Portanto, o trabalho terapêutico não pode ser destituído da teia da vida, seus elementos e seres. A escuta deve ir além do imaginário do Anthropos, e ser contada em conjunto com a história da Terra. Falar em ecopsicologia e atuar em ecopsicoterapia na atualidade exige abandonar vícios perigosos que procuram refletir e descontinuar nossos comportamentos que compactuam com o modo colonizador de pisar na terra. Mary-Jayne chama a atenção para possíveis preconceitos, expressões cristalizadas e práticas de apropriação cultural que se apossam indevidamente de vidas e ritualísticas pertencentes a culturas originárias, esvaziando a sabedoria ancestral e cultural desses povos.
O respeito pela circularidade do pensamento ecopsicológico está bem presente na forma como a autora estrutura o livro, quebrando de antemão a lógica dominante linear. Um dos maiores propósitos da autora na escrita do livro, é poder circuambular junto à pergunta máxima da ecopsicologia: O que nos torna tão destrutivos com aquilo que nos mantém vivos? Mary-Jayne se utiliza de muitas imagens, exemplos e vasta experiência prática na área para ilustrar e diferenciar conceitos como ecopsicologia, ecoterapia e ecopsicoterapia.
Sem definir os caminhos de leitura, no primeiro capítulo a autora inicia descrevendo a prática da ecopsicoterapia ao ar livre. No capítulo dois discorre historicamente sobre a ecoterapia e as diversas práticas. O capítulo três levanta os principais pontos entre a ecopsicoterapia e a ecopsicologia. No quarto capítulo retorna ao tradicional cenário do consultório terapêutico para contar como os sintomas ecológicos são narrados pelos seus clientes e aparecem na relação terapêutica. O capítulo cinco fala sobre o antropocentrismo e o trabalho terapêutico. O sexto capítulo aprofunda na temática do livro, ecopsicoterapia e o capítulo sete extrapola as percepções individuais da clínica para analisar psicoterapeuticamente o caldo cultural para novos rumos sentido uma civilização ecológica. A autora diz preferir aprender primeiro com os relatos práticos, mas há quem pense diferentemente dela, portanto o livro pode ser lido em qualquer ordem.
A importância desse livro se dá a partir da percepção de um número crescente de sintomas como ecoansiedades, biofobias, ecomelancolias e outros atravessamentos que denunciam a nossa relação disfuncional com a Terra. A autora propõe junto aos ensinamentos da ecopsicologia que ao invés de considerarmos os sintomas ecológicos como patologia, devemos compreendê-los como respostas pertinentes e saudáveis diante de um mundo adoecido, que procura transgredir o modo standard de vida, a disfuncionalidade ou desarranjo da cultura mercadológica.
Mary-Jayne em seu livro Ecopsicoterapia nos convida à sensibilidade e escuta da Terra. Ela diz: “A definição de saúde mental precisa incluir empatia pelo mundo outro que não humano.” Sentir e se conscientizar de nossa própria insanidade é um passo importantíssimo para imaginar novas formas de se relacionar com e evoluir com outras existências em constante devir. Para a autora, é na incerteza que se cria esperança em um território que estamos longe de habitar sozinhos.
Daniela Laskani é Psicóloga Clínica, Arteterapeuta e especialista em Ecopsicologia pela Pacífica Graduate Institute. Analista formada pelo Instituto Junguiano de São Paulo (IJUSP), filiado à Associação Junguiana do Brasil (AJB) e à International Association for Anaytical Psychology (IAAP). Atualmente está como coordenadora do Departamento de Ecopsicologia da Associação Junguiana do Brasil (AJB).
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