Manual do desachismo: Sociologia para pensar o cotidiano
Por: Cristiano Bodart
Em tempos de achismos, importa aprender a pensar
Cada um de nós vive sob pressões constantes para emitir opiniões sobre os mais variados assuntos. Em alguns momentos, essa cobrança é explícita; em outros, quase imperceptível. Conversas entre amigos, debates familiares, ambientes de trabalho e, sobretudo, as redes sociais transformaram a opinião em uma espécie de requisito para o reconhecimento social. Não ter uma posição sobre determinado tema pode ser interpretado como desinteresse, despreparo, alienação ou falta de conhecimento, afetando a imagem que os outros constroem sobre nós e, em certa medida, o valor social que nos atribuem.
A ampliação do acesso à informação intensificou esse processo. Espera-se que as pessoas acompanhem acontecimentos políticos, econômicos, culturais e científicos, mesmo quando esses assuntos não guardam relação direta com sua formação ou atividade profissional. A exigência já não consiste apenas em dominar os conhecimentos específicos de uma área, mas em demonstrar permanente atualização sobre acontecimentos que se sucedem em ritmo acelerado.
A situação torna-se ainda mais difícil porque a velocidade de circulação das informações reduz drasticamente seu tempo de relevância. Notícias, análises e debates rapidamente cedem lugar a novos acontecimentos, criando um fluxo contínuo de temas sobre os quais se espera que todos tenham imediatamente algo a dizer.
Nessas circunstâncias, aumenta a tendência de emitir juízos sem o tempo necessário para a reflexão, sem recorrer a evidências confiáveis e sem mobilizar formas de pensar adequadas para a compreensão da realidade social, a qual é sempre mais complexa do que imaginamos. A combinação desses aspectos resulta na reprodução de explicações simplificadas, preconceitos e informações distorcidas. Os tais achismos.
Esse problema é grave por ser circular: ao mesmo tempo em que difundimos interpretações pouco fundamentadas para aqueles que nos cercam, também construímos nossas próprias opiniões a partir das mesmas redes de circulação de informações e discursos. O achismo deixa de ser apenas um comportamento individual para constituir uma dinâmica social que se retroalimenta continuamente com consequências profundas para a sociedade. Por isso, superar o achismo constitui, por um lado, uma necessidade para quem deseja compreender os fenômenos sociais de maneira mais rigorosa e participar da vida pública de forma responsável e, por outro, um interesse coletivo, já que seus efeitos atingem toda a sociedade.
Contudo, ao longo dos últimos séculos, a humanidade produziu formas sofisticadas de pensamento, inclusive formas mais qualificadas de compreender os fenômenos sociais que nos envolvem cotidianamente. Porém, o seu acesso não foi popularizado, ainda que tenhamos tido uma ampliação da escolarização da sociedade brasileira e mesmo mundial. Mesmo quando acessado por meio da escola, em geral isso ocorre em uma fase da vida em que estudar é apenas uma obrigação imposta pela família ou pela perspectiva de inserção no mundo do trabalho. Nessas circunstâncias, absorvemos pouco do que é ensinado, preocupando-nos sobretudo em realizar exames e repetir o que o professor disse ou o que está no livro escolar. O resultado é uma população adulta que pouco ou nada aprendeu sobre como pensar o mundo social para além dos achismos.
O conhecimento mais qualificado quase sempre se encastela nas universidades. Quando se fala, por exemplo, de uma Sociologia Pública, normalmente pensa-se na transmissão de conhecimentos prontos aos não especialistas. Tenho pensado em uma direção diferente: em vez de levar conhecimentos prontos da universidade para a sociedade, acredito que precisamos ensinar a pensar. Só assim poderemos falar em pensamento crítico autônomo. Diferente disso haverá apenas repetição do que intelectuais e pesquisadores falam. Se o objetivo é promover o pensamento autônomo, esse não parece ser o caminho mais adequado.
Ao escrever o livro Manual do desachismo: Sociologia para pensar o cotidiano, tomei como objetivos colaborar na superação dos achismos e ensinar alguns esquemas de percepção empregados por sociólogos que podem ser incorporados por qualquer pessoa interessada em compreender melhor o mundo social.
O caminho sugerido no livro consiste no desenvolvimento de formas específicas de observar, interpretar e problematizar a realidade social. Em vez de oferecer respostas definitivas, busquei ampliar a capacidade do leitor de formular perguntas mais qualificadas e de reconhecer dimensões dos fenômenos que, sob a perspectiva do senso comum, permanecem invisíveis. A preocupação central não está em transmitir conclusões prontas, mas em modificar o modo pelo qual se constrói o próprio pensamento.
Para alcançar esse objetivo, introduzi a noção de esquemas sociológicos, entendidos como modos de percepção desenvolvidos historicamente pelas Ciências Sociais. Esses esquemas funcionam como instrumentos intelectuais capazes de organizar a observação, estabelecer relações entre diferentes aspectos da realidade e romper com explicações imediatistas. São denominados esquemas porque podem ser adaptados a diferentes situações, o que facilita sua apropriação e aplicação. Dessa forma, o leitor notará que o conhecimento sociológico poderá constituir uma "caixa de ferramentas" de uso prático para a interpretação do cotidiano.
No Manual do desachismo: Sociologia para pensar o cotidiano proponho um deslocamento da lógica da opinião espontânea para uma postura investigativa e reflexiva. Com isso, o leitor é convidado a substituir explicações imediatas por interpretações fundamentadas, reconhecendo que compreender a sociedade exige observar a complexidade dos fenômenos, questionar certezas aparentemente evidentes e desenvolver formas mais rigorosas de pensar o mundo social.
Cristiano Bodart é fundador e coeditor do Café com Sociologia e vice-presidente da Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (Abecs). É doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorado em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). Autor e organizador de diversos livros sobre o ensino de Sociologia, possui mais de uma centena de artigos científicos publicados. É professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), atuando na graduação em Ciências Sociais, no mestrado em Sociologia e no doutorado em Ensino. É bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq.
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