O que as mulheres realmente desejam? Uma resposta para além da beleza e da aprovação
Por: Thamine Jacobs
Nesta obra a analista junguiana Polly Young-Eisendrath investiga a dificuldade estrutural que as mulheres enfrentam ao tentar reconhecer e manifestar seus próprios anseios na nossa cultura. Longe de uma falha individual de vontade, trata-se de uma armadilha coletiva: desde cedo, ensina-se a mulher a se definir pelo impacto que causa nos outros, e não por suas próprias ações.
A autora sustenta que, em vez de irem atrás do que genuinamente querem, as mulheres frequentemente sucumbem à "vontade de serem queridas", uma busca incansável por aprovação externa que coloca o papel de objeto do desejo alheio acima do direito de serem protagonistas da própria existência. Retomando a célebre frase de Lacan de que "as mulheres querem ser desejadas, não amadas", Young-Eisendrath revela o mecanismo perverso dessa lógica: uma obsessão por agradar que corrói a autoconfiança e impede a autodeterminação. A tese central é provocadora: as mulheres aprenderam a localizar seu poder na imagem (serem bonitas, boas, atraentes, altruístas) em vez de na ação de serem o sujeito de suas próprias vidas.
Polly costura com maestria diferentes linguagens: mitos gregos (como os de Pandora, Eros e Psique), contos de fadas medievais (especialmente a lenda de Gawain e Lady Ragnell), casos clínicos de sua própria prática terapêutica, relatos pessoais narrados com honestidade e sua bagagem analítica junguiana. Essa fusão entre o simbólico e o cotidiano torna a leitura ao mesmo tempo erudita e profundamente acessível.
Um dos pontos altos do livro é a desconstrução do que ela chama de "nó duplo" da beleza: a mulher é “amaldiçoada” se considerada feia (transformada em megera ou bruxa) e igualmente limitada se considerada bonita (reduzida a musa, um objeto sem centro próprio). Fica presa, assim, numa perseguição obsessiva por magreza, juventude e padrões inalcançáveis, uma caçada que anula o eu central em nome do olhar alheio, utilizando como exemplo a Princesa Diana. O mito de Pandora é usado para mostrar como a beleza feminina foi historicamente associada ao mal e à dissimulação, justificando o controle masculino. A libertação desse nó exige que a mulher assuma o controle da sua própria aparência e identidade, deixando de se enxergar somente pelo espelho da aprovação masculina.
A preocupação excessiva com a aparência e a desejabilidade atua como um anestésico para o prazer real. A inibição impede a entrega necessária à paixão. Com o mito de Psique e Amor, a autora demonstra que o desejo sexual feminino autêntico só floresce quando a mulher abandona o papel de objeto passivo e assume sua autonomia como parceira igual. O "amor verdadeiro" surge quando o desejo encontra a realidade, permitindo que o casal se veja com suas imperfeições humanas, em vez de projeções idealizadas.
Na maternidade, ela denuncia o quanto ser uma mãe superprotetora, construção ocorrida apenas nos últimos cem anos, gera um estilo de criação isolado e ansioso, no qual a mãe se funde inteiramente com o universo do filho. Discute o arquétipo da "Criança Divina", em que os pais projetam suas necessidades de poder e glória na criança, sacrificando a autonomia dela. A partir do conto de Rumpelstiltskin, mostra como mães podem, sem perceber, trair a soberania das filhas, exigindo que elas se encaixem em padrões que geram raiva e ressentimento, transformando a criatividade da filha em uma fonte discordante de revolta.
Sobre a independência financeira, a autora é direta: a dependência econômica é uma das amarras mais concretas à soberania, pois impede a liberdade de escolha real. Sem dinheiro próprio, a "vontade de ser querida" vira necessidade de sobrevivência. Por isso, a autonomia financeira é condição básica para a saúde psicológica e para escolhas livres nos relacionamentos.
Já ao tratar das patologias do consumo e dos distúrbios alimentares, ela recorre à cosmologia budista dos "Fantasmas Famintos", seres com pescoços estreitos e barrigas enormes que jamais se saciam. O remédio não está em mais bens materiais, mas no reconhecimento das intenções reais e no "alimento espiritual".
Na espiritualidade, Young-Eisendrath desafia as tradições que silenciaram mulheres por séculos. Em vez de receptoras passivas de dogmas, segundo a autora elas devem tornar-se criadoras ativas de sentido, testando comunidades e narrativas que respeitem sua autonomia. O desenvolvimento espiritual é visto como um compromisso com algo que transcende o eu individual, sendo crucial para a saúde na segunda metade da vida. Ela encoraja as mulheres a encontrarem ou criarem uma "Grande História" que dê sentido à existência.
O clímax do livro é a resposta à pergunta medieval que atravessa a obra (inspirada no conto de Lady Ragnell): o que uma mulher deseja acima de tudo? A resposta é o direito de exercer seu livre-arbítrio, ou, nos termos da autora, a soberania pessoal: a capacidade de escolher conscientemente entre alternativas e assumir a responsabilidade pelos próprios atos.
Young-Eisendrath faz uma distinção crucial: soberania não é isolamento (o mito do herói solitário), mas dependência madura, reconhecer que precisamos dos outros sem entregar a autoridade interna. O paradoxo da liberdade é justamente este: ser livre não é ter poder ilimitado, mas agir com propósito dentro das limitações concretas e vulnerabilidades da vida. Ao viver como sujeitos de seus desejos, as mulheres trocam a busca por uma imagem pela busca por um coração autêntico e transparente.
A Mulher e o Desejo é um roteiro prático e corajoso para que mulheres deixem de ser o reflexo do desejo do outro e passem a habitar seu próprio coração com honestidade. Serve como um guia para identificar como as mulheres foram condicionadas a buscar o poder através da imagem e da beleza, o que frequentemente as deixa presas em um "nó duplo" de frustração e vazio. Leitura essencial para psicólogos, educadores, terapeutas e qualquer pessoa interessada em desenvolvimento humano, especialmente aquelas que já sentiram o vazio de ser desejadas sem nunca terem perguntado a si mesmas o que realmente querem.
Thamine Jacobs é terapeuta junguiana e facilitadora de vivências em escrita terapêutica. Especialista em Psicologia Analítica e o Sujeito Contemporâneo, produz conteúdo em linguagem acessível sobre a obra junguiana no perfil Morada da Psique (@moradadapsique). Pesquisadora nas áreas de Psicologia do Feminino, Saúde Mental da Mulher, Arte e Processo Criativo.
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Comentários
Angela Randis
Thamine, depois dessa resenha, já quero comprar o livro. Você escreveu de um jeito tão sensível e inteligente que desperta muita curiosidade sobre o tema, principalmente por trazer uma visão que vai além da beleza e da aprovação. Lindo texto mesmo. Parabéns!