Thor e seus irmãos - Deuses do trovão na Escandinávia

Por: Victor Hugo Sampaio Alves

 

Diversas religiões e mitologias pré-cristãs contavam com a presença de uma divindade do trovão em seus respectivos panteões. O assombro humano perante a imponência e potência do raio e dos trovões fez com que o atrelássemos a poderosos deuses que ultrapassaram, em muito, a mera personificação desse fenômeno natural. 

Não é de surpreender, portanto, que encontremos registros da divindade dos trovões disseminados por todo o mundo. Nos épicos da etnia Hmong, o deus do trovão atua na cosmogonia auxiliando a erguer o sol e a lua no céu; na antiga religião hindu, Indra comanda não apenas o trovão e os céus, mas é rei dos próprios deuses; sai vitorioso de seu embate contra Vritra, uma besta serpentiforme, para que a água voltasse a fluir; assim como o fez Zeus contra Tifeu na mitologia grega.

Nosso fascínio para com essas divindades é tamanho que continuamos a invocá-las de nosso imaginário para o mundo, seja em HQs, jogos de vídeo game, filmes ou literatura. Basta lembrarmos o Thor da Marvel, sua força sobre-humana e seu uso dos raios como poderosas armas, ou o assombroso Thor retratado na franquia de God of War.

Mas, apesar de nosso grande interesse pelos deuses do trovão em geral e especialmente pelo popular Thor, carecemos de materiais em língua portuguesa que apresentem e contextualizem sua face histórica ao público geral. Existem artigos acadêmicos, alguns de nossa própria autoria, que versam sobre o assunto; eles trazem, porém, discussões mais avançadas que dialogam com um conhecimento prévio, disponibilizado sobretudo em língua inglesa.

Ao notarmos que havia o interesse do público geral e uma simultânea lacuna sobre o assunto no campo editorial brasileiro nasceu a proposta do presente livro. Ele é fruto de pesquisas desenvolvidas ao longo de quase 3 anos sobre as divindades do trovão no território Escandinavo. Nosso ponto de partida é a Idade Média e suas fontes documentais, sobretudo de natureza literária, envolvendo o deus Thor. 

Como as fontes nórdicas medievais são abundantes, temos a afortunada oportunidade de apresentar ao público uma espécie de anatomia do deus: dissecamos as fontes conforme descrevem seus poderes, atributos e áreas de regência, trazendo também dados sobre os cultos a Thor e detalhes (um tanto quanto complexos) sobre sua arma, o suposto martelo Mjollnir. Apresentamos ao leitor a investigação de uma série de gêneros literários, que abarcam desde as poesias éddica e escáldica às sagas islandesas e à Edda em Prosa, dialogando, quando possível, com a cultura material. O intuito é que tanto as pessoas interessadas pela mitologia nórdica especificamente quanto pelo estudo do mito de forma geral possam ter acesso à imagem de Thor que circulou no medievo e também saber o que os principais e mais clássicos estudos sobre ele tiveram a dizer a seu respeito.

A grande vantagem de nosso livro é a amplitude do recorte. Mesmo começando pelo Thor das fontes medievais, estendemos nossa investigação até as fontes modernas: analisamos relatos de missionários cristãos nos séculos XVII e XVIII sobre supostos cultos a deuses do trovão no gélido norte, trabalhos de teóricos de gabinete como Johannes Schefferus, estudos detalhados como o de Lars Levi Laestadius, narrativas folclóricas coletadas no século XIX e chegamos, por fim, à Kalevala, a epopeia finlandesa, também do século XIX.

É nesse momento em que os irmãos de Thor entram em cena: apresentamos ao leitor os outros deuses do trovão que dividiram o espaço celestial da Escandinávia com Thor. As divindades finlandesa e sámi dos trovões, respectivamente Ukko e Horagalles, também deixaram suas marcas nas fontes documentais da região. Imaginados pelos povos fino-úgricos, vizinhos dos “vikings”, como sendo poderosos homens velhos encarregados do controle climático, esses outros deuses do trovão foram lembrados com admiração e temor até tão tardiamente quanto o século XX. 

Aventurando-se pelo livro o leitor logo descobrirá que nem mesmo séculos e séculos de Cristianismo foram capazes de ofuscar por completo a presença dos deuses do trovão no imaginário dos povos escandinavos. Reunidos aqui estão o Thor dos nórdicos medievais, Ukko, da Kalevala e das invocações dos curandeiros da Finlândia e Carélia do século XIX, e Horagalles (e suas variações), presentes no culto dos povos sámis, povos semi-nômades do extremo norte escandinavo. 

Convidamos o leitor para imaginar conosco como teriam soado os diferentes trovões que habitaram o norte europeu. Boa leitura!

 


Victor Hugo Sampaio Alves é natural de Pouso Alegre, Mi­nas Gerais. Graduado em Psicolo­gia, sempre se interessou pelo estu­do comparado dos mitos e religiões pré-cristãs, pesquisando especifica­mente o norte europeu durante seu mestrado e doutorado em Ciências das Religiões pela Universidade Fe­deral da Paraíba (UFPB). É autor de verbetes do Dicionário de História e Cultura da Era Viking (Hedra) e do Dicionário de História das Religiões na Antiguidade e Medievo (Vozes). É membro do Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos (Neve) e da Sociedade Finlandesa de Lite­ratura (Suomalaisen Kirjallisuuden Seura), atuando também como edi­tor no Scandia – Journal of Medieval Norse Studies.